domingo, 30 de agosto de 2015

Alfarrobeira (Ceratonia siliqua) - O Seu Peso em Quilates

Espécie: Ceratonia siliqua L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Fabales
Família: Fabaceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes comuns: Alfarrobeira,
fava-rica, figueira-do-egipto.
English name: Carob.

«E João tinha as suas vestes em pele de camelo, com um cinto de couro em torno dos seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre» S. Mateus 3:4

Sendo escuras, alongadas e curvilíneas, crê-se que as vagens da alfarrobeira tenham sido traduzidas por «gafanhotos» pelos antigos Gregos. Com elas ter-se-á alimentado S. João Baptista no deserto da Judeia, antes do nascimento de Cristo, quando andava a pregar as mudanças vindouras. E não é de estranhar, uma vez que a alfarroba é um alimento bastante completo, prova disso é ter sido exaustivamente aproveitada pelos Malteses durante os racionamentos da II Grande Guerra, quando pouco mais havia para comer… 

Histórias e lendas não faltam a este mesofanerófito monóico, oriundo do Mediterrâneo e Ásia Menor, também conhecido por «figueira-do-egipto», cuja madeira preciosa é muito procurada por marceneiros para o fabrico de mobiliário e peças decorativas. De tronco baixo, cinza-acastanhado, e ramos por vezes avermelhados, apresenta folhas alternas e bipinadas, verde-escuras na página superior, divididas em folíolos elípticos, coriáceos e em número par. As flores, que surgem entre Julho e Outubro, ostentam longos estames (as masculinas) e pronunciados carpelos (as femininas). O fruto, uma vagem quase negra e indeiscente, a alfarroba, é o açúcar vegetal mais antigo de que há memória. O açúcar da alfarroba antecedeu em milénios o da beterraba e o da cana, motivo pelo qual a sua imagem era utilizada em escrita hieroglífica em representação do conceito de «doce».

Com excepção da raiz, tudo nesta árvore é aproveitado medicinalmente. Comecemos pelo ritidoma, que deve ser colhido no final do Inverno, antes do Equinócio Vernal, altura em que é mais facilmente destacável do tronco. Rico em taninos e fortemente adstringente, é decoctado e usado em casos de disenteria. A indústria das peles também dele se socorre para curtimento. As flores e as folhas possuem igualmente propriedades adstringente, para além de anti-sépticas estomáquicas e emolientes, empregues internamente no tratamento de estomatites, anginas (gargarejos) e diarreias; externamente são usadas sobre equimoses, acne, dermatites, ulcerações, hematomas e vulvovaginites. A infusão das vagens é béquica e adstringente, empregue em todo o género de doenças do foro respiratório. O xarope de alfarroba é conhecido como «ouro cipriota», e tanto serve de medicamento como de suplemento alimentar.

A polpa quando fresca torna-se laxante e emoliente, ideal em dietas de emagrecimento, uma vez que retarda a absorção de lípidos e açúcares, prolongado a sensação de saciedade e prevenindo a acumulação de colesterol nas artérias e a arteriosclerose, para além de funcionar como anti-emética e tratar problemas digestivos. Não deve, no entanto, ser consumida conjuntamente com medicação, isto porque também retarda a sua absorção, como ocorre no caso concreto da penicilina. Segundo um antigo uso popular, a polpa fresca pode ser empregue como anti-fúngica. 

A farinha de alfarroba, à qual tradição popular atribui propriedades afrodisíacas, possui um efeito adstringente e não pode se consumida por quem sofra de obstrução intestinal. Rica em açúcares, prótidos, lípidos, vitaminas, pectina, ácidos benzóico e fórmico, fósforo, ferro, fibras, taninos e mucilagem, contém três vezes mais cálcio que o leite e é um alimento adoçante, nutritivo e aperitivo. Mais doce que o cacau é, porém, muito menos calórico e não susceptível de provocar alergias, o que faz dela o sucedâneo perfeito para quem sofra de diabetes ou obesidade e queira desfrutar de um bolo de chocolate… 

As pequenas sementes esféricas, contidas nas vagens, guardam uma história curiosa e invulgar no reino da Natureza. Como é sabido, na Natureza não existem dois seres exactamente iguais; porém, no caso da alfarrobeira, esta lei parece ter tido pouco efeito, já que as sementes apresentam uma incrível regularidade de peso e tamanho, mesmo entre indivíduos diferentes e distantes geograficamente. Embora não sendo cópias absolutamente fiéis umas das outras, algo que só os sistemas modernos de pesagem puderam revelar, a aparente regularidade levou a que fossem utilizadas como unidades de peso desde longa data. Os Gregos chamavam-lhe Kerátion, por a forma da vagem se assemelhar a um corno; nós chamamos-lhe quilate. Uma semente de alfarroba equivale, assim, a um quilate, sistema de pesagem de metais e pedras preciosas que, hoje em dia, com as novas balanças de alta precisão, já dispensa o contributo directo da alfarrobeira.

A ligação desta árvore antiga aos povos mediterrânicos e meso-orientais está bem patente nas tradições religiosas judaicas e islâmicas, sendo um dos alimentos consumidos durante certas festividades, como o Tu Bishrat e a quadra do Ramadão, período de jejum durante o qual é costume beber-se sumo de alfarroba.

Gastronomicamente, para além do uso da farinha em doçaria, e das vagens na preparação de licores e vinhos, a goma pode ser utilizada como espessante em substituição do ovo. Torradas, as sementes são um sucedâneo do café, com um sabor muito semelhante e acre. 
Também a nível cosmético a farinha é procurada para o fabrico de cremes e pós de rosto. 

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