segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Árvores - Entre o Aquém e o Além

Sempre exerceram um fascínio religioso sobre a humanidade. Eram, assim como ainda são, marcos importantes na paisagem, pontos de referência, tanto no mundo físico, como imaginal.

A árvore é por excelência um símbolo de ligação entre o Homem e os deuses, um corredor interdimensional entre o plano da consciência e os arquétipos transcendentes que desde cedo moldaram a nossa forma de estar e de sentir. Entre os aspectos práticos da vida terrena e os fundamentos espirituais, as árvores assumiram quase sempre um protagonismo mágico, umas vezes malfazejo, outras apotropaico. 

A Antiguidade elevou-as à condição de deuses e deusas, associou-lhes profetas, atribuiu-lhes origens metamórficas e curas sobrenaturais, prestou-lhes culto, temeu-as. A Idade Média soube preservar este carácter mediúnico relacionado com a medicina e a alimentação. O tempo era medido pelos ciclos de renovação das caducifólias, pela chegada das flores e depois dos frutos, um mistério que ocorria, e ocorre, sem qualquer intervenção humana, um presente divino apenas explicável pela fé e pela magia religiosa. 

Da mesma forma que se acreditava que as doenças podiam ser transpostas dos humanos para os animais, no século XVII desenvolveu-se uma estranha crença medicinal baseada na transposição das doenças humanas para as árvores, para assim livrar os enfermos dos seus males. Em França, vamos encontrar nesta época uma prática que viria a tornar-se bastante comum durante o século seguinte, a de atar o doente a uma árvore ao amanhecer, deixando nela as suas roupas; desta forma a doença passaria para a árvore, a qual poderia morrer ou não, em vez do doente. Diversos outros costumes bizarros foram sendo adoptados a despeito das “luzes” científicas do século XVIII e à revelia do Positivismo. Uma destas práticas consistia em levar comida a uma árvore e espalhar sal em seu redor, um acto acompanhado por uma oração de apelo à cura. Em Inglaterra foi hábito fazer-se um buraco num freixo e passar-se por ele o recém-nascido doente. Quando a árvore sarasse, assim sararia a criança. Os métodos multiplicavam-se por todo o Velho Mundo, mas também na recém-colonizada América, onde o Puritanismo dava cartas e perseguia toda a sorte de trabalhos mágico-religiosos, associando-os ao Paganismo remanescente. 

Para além dos aspectos mágico-religiosos, mitológicos, alimentares e medicinais, as árvores são os pulmões do nosso mundo e desempenham um papel insubstituível na preservação do meio-ambiente e da totalidade dos ecossistemas. O desrespeito por elas, bem como pela maioria das plantas, conduz a desastres ambientais dignos das mais enfáticas mitologias. Não é de hoje que os efeitos nefastos da desflorestação são conhecidos, como o demonstra o antigo caso dos cedros-do-líbano.   
    
Era a madeira mais valiosa da Antiguidade, transacionada pelos Povos do Mar e mais tarde pelos Fenícios, Gregos, Etruscos, Cartagineses e Romanos, ao longo das margens do Egeu, do Adriático e do Mediterrâneo. Nessa época longínqua, não tanto como agora, as copas rectas dos ciprestes cobriam os vastos socalcos da Fenícia, em florestas densas e quase impenetráveis. O seu desbravamento contínuo e ganancioso levou a desastres ambientais sem precedentes, como os que estiveram na origem da queda de Éfeso e da epidemia de malária que abriu brechas profundas num Império Romano já debilitado por crises políticas e económicas e pela pressão dos povos bárbaros vizinhos. Sem os ciprestes que estabilizavam os solos das montanhas, as chuvas arrastaram terras e aplanaram a região, tornando a cidade portuária de Éfeso num local fechado e bafiento. A demonstrá-lo estão as ruínas do famoso templo de Artémis, dantes localizado sobre as arribas junto ao Egeu e que hoje em dia se situa a quase três quilómetros da falésia. Dá que pensar… sobretudo porque de lá para cá já muitas outras catástrofes semelhantes levaram ao êxodo ou à extinção de povos.

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