domingo, 20 de setembro de 2015

Carvalho - O Arauto do Outono

Mítico guardião do conhecimento, altar de deuses, morada feérica, avatar druídico, templo. O carvalho faz-se acompanhar por uma extensa simbologia céltica, de raiz indo-europeia, ligada à sabedoria, à realeza, à força, à protecção e à estabilidade.

É desde há muito a madeira favorita dos vinicultores, usada nesse longo processo alquímico que é evolução de um vinho. Mago do tempo, o carvalho é detentor de um estatuto ímpar no mundo da Enologia, mas o seu valor não fica por aqui, e foi na religiosidade dos povos europeus e na sua medicina popular que estas magníficas árvores deram os primeiros passos na vida do Homem. Algumas das suas propriedades curativas migram para os vinhos na forma de ésteres, lactonas, taninos e fenóis, estruturando-os, impregnando-os de novos aromas, amaciando-os, transformando-os. Vamos tentar conhecer um pouco mais sobre estas espécies que chegam com frequência às nossas mesas de forma velada.

Guardião ancestral, coroa qualquer paisagem onde caia a sua semente. Podendo ultrapassar os imponentes trinta metros de altura, chega a tornar-se num megafanerófito ao longo dos séculos que lhe são dados viver. De tronco robusto e ritidoma acinzentado, escuro e fendido, apresenta folhas decíduas ou marcescentes, consoante a idade e a espécie, verde-claras quando jovens, alternas, sinuado-lobadas, com lobos arredondados ou obtusos, e pecioladas. Trata-se de uma espécie monóica, com flores masculinas e femininas no mesmo exemplar. Também à semelhança de outras espécies do género Quercus sp., as flores do carvalho surgem antes do Verão e organizam-se em espigas pendentes (amentilhos), tendo as femininas duas a três flores. O fruto, maduro no Outono, é uma bolota oblonga e clara, inserida numa cúpula de escamas quase planas ou imbricadas como se de telhas se tratassem. Os carvalhos podem apresentar excrescências vermelhas, os chamados «bugalhos», provocadas pela picada de um insecto do género da cochinilha, os quais são ricos em taninos e usados em tinturaria, no curtimento de peles e na obtenção de corantes alimentares.

Europeus silicícolas ou calcícolas, têm preferência por terrenos com certa humidade eprofundidade, e podem ser encontrados desde as Ilhas Britânicas, das quais são emblemáticos, até à Anatólia, onde eram venerados pelos Celtas Gálatas. Segundo Estrabão, o «Drunemeton» era um bosque-templo formado por carvalhos, onde se reuniram as três tribos celtas gálatas, os Tolistobogos, os Tectósagos e os Trocmos. Em Espanha encontramos uma «Nemetóbriga», bosque supremo, e ao longo do Ocidente europeu deparamo-nos diversas vezes com o radical «nemeton», carvalhais sagrados, que encontram eco nas mitologias e nas lendas locais e são corroborados pela Arqueologia, através do estudo das sementes (Palinologia), bem como pela literatura clássica e medieva.

Seja qual for a sua espécie, o carvalho tem muito para oferecer. O ritidoma dos ramos jovens, colhido em Maio, quando é facilmente destacável, é a parte mais utilizada para fins terapêuticos, podendo ser tomado em pó, em decocção ligeira, ou diluído em tinturas ou vinhos. A fusão dos princípios activos que comporta (taninos, a pectina, o cálcio, os ácidos gálico e elágico, e a fluroglucina) constitui em antídoto eficaz para certos tipos de veneno, como a nicotina (alcalóide), servindo como purificante em casos de intoxicação tabagista e retardando a absorção de alcalóides. Não deve ser tomado juntamente com medicação, uma vez que também retarda o efeito desta. Fortemente adstringentes, o ritidoma, as folhas secas, os bugalhos e as bolotas, são empregue em casos de disenteria aguda e incontinência urinária. Como tónico, expectorante, hemostático, antipirético, descongestionante e anti-séptico, é usado no tratamento de gripes, constipações, tosses, tuberculose, leucorreia, bronquite, faringites, desordens hepáticas e febres.

Externamente, em decocção, tintura ou cataplasma quente, é empregue em casos de acne e demais erupções cutâneas, hemorroidal, inflamações genitais e transpiração excessiva dos pés. As folhas podem ser usadas para acelerar processos de compostagem para enriquecimento de terrenos, e a sua seiva tem sido empregue como repelente de insectos e lesmas em agricultura biológica!

A essência do carvalho é uma das mais utilizadas na terapia por Florais de Bach, restituindo aos pacientes a calma, a força e o equilíbrio perdidos com a sobrecarga laboral e emocional a que a sociedade contemporânea nos sujeita.

Usados em tinturaria, os bugalhos fornecem vários tipos de pigmento consoante o mordente utilizado. Misturados com óxido de ferro, deles obtém-se uma coloração negra; se misturados com óxido de cobre, resulta num tom dourado; se usado alumínio, resulta em castanho; e com sulfato de ferro obtém-se um tom arroxeado.

Pouco apreciado, porém provedor em épocas de escassez, como as que se faziam sentir regularmente nas sociedades pré-industriais. A bolota do carvalho, muito rica em fécula, era laminada e usada em substituição dos frutos secos, ou farinada e empregue em panificação sempre que os cereais rareavam. A abundante presença de taninos confere-lhe um sabor amargo, o que era neutralizado pela sua demolha na água corrente de um rio ou pelo seu enterramento temporário.  À semelhança dos frutos de outras fagáceas colhidos no Outono, as bolotas eram por norma envoltas num pano de linho e enterradas em leitos aquáticos durante todo o Inverno. Também do tronco do carvalho se extraía uma goma comestível, usada em frituras.

Uma das espécies mais usadas em tanoaria para vinificação e estágio é a Q. rubor, o carvalho-roble, também conhecido por carvalho-inglês ou alvarinho, talvez a mais taninosa de entre as madeiras empregues em enologia, quer em barricas quer sob a forma de lascas para maceração ou ainda como essência. Em latim, o termo rubor designa simultaneamente «carvalho» e «força», que pela via popular originou em Português o adjectivo «robusto». De facto, a robustez é um dos maiores predicados desta árvore, cuja longevidade está intrinsecamente associada à sabedoria. Na Europa, os dois exemplares mais antigos encontram-se na Letónia e a Bulgária, com idades acima dos mil e quinhentos anos.

Certos mitos encontram fundamento na realidade, e assim é no caso do carvalho, do qualsempre se disse que atraía e neutralizava os raios da fúria de Zeus, durante as tempestades que este deus olímpico abatia sobre a humanidade. Na verdade, esta árvore funciona como um para-raios eficaz e natural, espécie de fio-terra que neutraliza a electricidade canalizando-a para o solo. Talvez por esta razão ainda hoje exista o costume de tocar a madeira para afastar as más energias invocadas inadvertidamente durante as conversas. Esta actividade protectora assumiu ao longo dos tempos um carácter mais amplo, mágico e apotropaico. Como genius loci, o carvalho era presença assídua nas casas brasonadas e acreditava-se que o seu derrube comportaria a desgraça da família por ele protegida. Esta tradição, transversal ao mundo europeu, celebrizou-se numa profecia feita a uma família escocesa, os Hay, proprietários das terras de Errol em Perthshire. Dizia-se que uma vez morto o carvalho, «cresceria erva sobre a lareira» familiar. No início do século XIX, o abate da árvore centenária coincidiu com a ruína e subsequente venda da propriedade dos Hay. Coincidência? Episódio semelhante ter-se-á passado em Inglaterra no século XVII, quando em Outubro de 1649 os enviados de Cromwell à propriedade de Woodstock, logo após a decapitação do rei Carlos I, supostamente desencadearam uma série de fenómenos de poltergeist e aparições fantasmagóricas por terem abatido o enorme carvalho do qual o falecido rei tanto gostava.

Investido num papel mágico-religioso, o carvalho funciona simultaneamente como templo e axis mundi, um eixo de comunicação entre o plano dos deuses e o da humanidade. Relacionado com os mundos feérico e divino, esta árvore, cujas raízes penetram profundamente na esfera telúrica, parece ter tido uma outra origem que não a terrena, estando quase sempre associada aos deuses da tempestade, do raio e do trovão. Na Grécia Antiga era governada por Zeus, em Roma por Júpiter, no mundo eslavo era pertença do deus Perunú, na Prússia pertencia a Ramowe, entre os celtas ibéricos era teofania da deusa Drusuna. Ao longo da faixa ocidental europeia, o carvalho é morada do povo das fadas e avatar druídico. A palavra druida, de acordo com Plínio, o Velho, radica no vocábulo grego «drus», carvalho, ao qual se acrescentou o sufixo «vide», que parece derivar do sânscrito «veda», ciência, conhecimento, o que não é estranho, visto as línguas célticas derivarem, assim como o Latim e o Grego, do Indo-europeu, que por terras europeias assentou progressivamente num substracto linguístico autóctone neolítico, à medida que os grupos indo-europeus foram chegando vindos do Vale do Indo e das estepes russas. Assim, «druida» significará algo como carvalho sábio ou homem-carvalho. Neste ponto, o carvalho e a videira entrelaçam-se não apenas nos vinhos que engendram mas também foneticamente, já que ambos transportam nos seus nomes o imago da sabedoria divina concretizada no Homem.  

Longe de ser visto apenas como uma árvore, tudo quanto envolvesse o carvalho eraritualizado pelos celtas. Exemplo disto é a recolha do visco, que nas Ilhas Britânicas é conhecido por mistletoe. Esta planta parasítica, que finca os seus rizóides nos troncos destas árvores, era cura para a infertilidade e antídoto para todos os venenos. A sua apanha era feita por um arquidruida, de túnica branca, munido de uma foice de ouro, ao sexto dia da Lua nova, conforme exigia a sacralidade de ambas as plantas em causa. Ainda hoje esta relação do visco com os rituais de fertilidade encontra uma reminiscência no beijo que por tradição os casais devem dar sob o mistletoe na noite de Natal para que o seu amor seja eterno.

O porte majestoso e a folhagem decídua ou marcescente do carvalho remete-nos para o eterno devir entre a Vida e a Morte. Os jardins plantados sob a égide do Romantismo davam preferência a estas árvores altas, sombrias, centenárias, de ramos retorcidos, sugestivamente fantasmagóricos, capazes de criar verdadeiros cenários de contos de fadas passados nas hipnóticas trevas dos bosques medievais. Diversos artistas, desde escritores a escultores, inspiraram-se no carvalho extraindo dele toda uma dialéctica baseada na fantasia e no sentimento de ancestralidade. Exemplo disto são algumas das obras do pintor Caspar David Friedrich, das quais a mais emblemática seja provavelmente o Monastery Graveyard in the Snow, pintado entre 1817 e 1819, em plena época romântica, em que a imagem das ruínas adquiriu um papel estético e esotérico sem precedentes.

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