sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ciprestes (Cupressus spp.) - Arquétipos do Eterno


Espécie: Cupressus macrocarpa Hartw. Ex. Gordon.
Divisão: Gimnospérmicas/Pinophytae
Classe: Pinatae
Ordem: Pinales
Família: Cupressaceae
Sinonímia: Callitropsis macrocarpa (Hartw.) D. P. Little.
Nomes vulgares: Cipreste-de-monterey.
English name: Monterey cypress.

A persistência da sua folhagem densa e escura evoca a eternidade; a sua forma colunar ou piramidal eleva o espírito humano até à morada dos deuses superiores. O cipreste fala-nos de morte iniciática, da perenidade do espírito sobre a matéria corruptível. Na sua presença assumimos o papel de um neófito que desce os primeiros degraus em direcção a um céu interior. Somos imortais na escalada do conhecimento.

O Cupressus sempervirens (cipreste-comum) teve por berço o Médio Oriente e o Mediterrâneo Oriental. O seu congénere C. macrocarpa (cipreste-de-monterey), por seu lado, veio da longínqua Califórnia. De crescimento colunar ou piramidal, de ramos erectos ou patentes, apresentam troncos acinzentados e com fissuras verticais que não descamam. As folhas são opostas, escamiformes, obtusas, rijas e verde-escuras, compactadas em torno dos ramos. Monóicos, apresentam flores femininas globosas que se encontram nas extremidades dos ramos mais curtos; as masculinas formam estróbilos amarelo-esverdeados dispostos nas extremidades dos ramos maiores. Os frutos são pequenas gálbulas globosas, formadas por dez a catorze escamas poligonais, que atingem a maturidade ao segundo ano, adquirindo uma tonalidade amarelada. Cada escama contém até vinte sementes aladas. O cipreste-de-monterey é facilmente moldável pelo vento e adquire, quando adulto, uma copa ampla e de topo achatado, perdendo os ramos inferiores à medida que se desenvolve, ao passo que o cipreste-comum mantém a sua copa colunar ou piramidal, podendo abrir bastante ou manter-se compacta em torno do tronco, praticamente desde a base.


Espécie: Cupressus sempervirens L.
Divisão: Gimnospérmicas/Pinophytae
Classe: Pinatae
Ordem: Pinales
Família: Cupressaceae
Sinonímia: Cupressus horizontalis Mill.;
Cupressus patula Spadoni;
Cupressus sempervirens L. var. numidica Trab.
Nomes vulgares: Cipreste-comum,
cipreste-de-itália,
cipreste-dos-cemitérios, cipreste-mediterrânico.
English name: Italian cypress.

A nível medicinal, o cipreste-comum foi desde sempre usado como depurativo. A sua resina possui propriedades béquicas e rubefacientes. O óleo essencial é rico em taninos, hidrocarbonetos, cânfora, ácido fórmico, pineno, canfeno e álcool terpénico. Não deve ser tomado durante a gravidez, lactância e em caso de distúrbios nervosos.

O ritidoma e as folhas são colhidos na Primavera, quando a árvore retoma o fluxo da sua seiva. Possuem propriedades adstringentes, antibacterianas, anti-fúngicas, anti-hemorroidais, vasoconstrictoras e diuréticas. A sua decocção é empregue em problemas urinários, rectais, uterinos e da próstata. Externamente é empregue sob a forma de óleo no tratamento do hemorroidal. A decocção das ramas e dos frutos verdes é usada externamente em compressa anti-acnéicas, gargarejos, inflamação e sangramento das gengivas, chagas, úlceras e transpiração excessiva dos pés (sudorese podal). A tintura dos frutos é utilizada na remoção de verrugas.
Os frutos são adstringentes, antibacterianos, tónicos circulatórios, empregues no tratamento de varizes, metrorragias, prostatites, edemas e enurese nocturna. Mitigam problemas respiratórios (inalações do óleo essencial), tosses, bronquite e asma.
   
Menos usado é o cipreste-de-monterey, contudo é útil no alívio do reumático. Por norma recorre-se à decocção ligeira das ramas, cerca de 30g/litro.

As origens míticas destas árvores são inúmeras e todas elas intimamente relacionadas com a morte. Uma das mais antigas fala-nos da morte trágica e temporã de Ciparissa, filha do Vento Norte, Bóreas, que para os Trácios havia sido um importante rei celta. O rei terá plantado um cipreste, até então desconhecido, sobre o túmulo da filha, e doravante esta árvore passaria a representar os mortos.

Outro mito conta-nos a história de um belo rapaz, Ciparisso, protegido de Apolo, segundo umas versões, de Zéfiro ou Silvano, segundo outras, que se fazia acompanhar por um cervídeo domesticado, pertença de Apolo. Certa noite, por equívoco, o jovem alvejou o animal, que acabou por morrer. O profundo desgosto que o acometeu fê-lo chorar até o seu corpo se transformar em árvore e as suas lágrimas em resina. Desde mito parece derivar o topónimo «Chipre», ilha onde os ciprestes são emblemáticos.

Um outro mito narra a morte trágica das filhas do rei Etéocles da Beócia, as «Ciparissas», afogadas numa fonte durante uma festa em honra de Deméter, e transformadas em árvores por piedade de Geia.

Dedicados a Saturno e a Hades, os antigos Gregos colocaram os ciprestes sob a alçada de Hércules e atribuíram-lhes incontáveis poderes mágicos ligados à ressurreição e aos Mistérios Órficos do eterno retorno e da negação da morte.  A longevidade destas árvores, que chegam a ultrapassar os dois mil anos de idade, e a incorruptibilidade da sua madeira, resistente ao ataque dos bichos, muito contribui para que sejam associadas às esferas do Eterno e do Imutável. Por esta razão, as leis eram, na Grécia Clássica, escritas em madeira de cipreste, como garante da perenidade das mesmas. Também os ataúdes dos guerreiros, assim como os sarcófagos faraónicos, eram talhados desta madeira que os transportaria para a Eternidade.

Como mãos-postas em oração pelas almas já idas, ainda hoje enfeitam os nossos cemitérios como enfeitaram os da Antiguidade e os islâmicos, remetendo os visitantes para as virtudes do silêncio, da meditação e da elevação do espírito, as mesmas que presidem às formas arquitectónicas colunares que encontramos desde a Antiguidade até ao seu clímax nas catedrais góticas.

Ler mais sobre o óleo essencial de cipreste...

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